VisionQuest: o Visão, seus agentes de IA e a realidade de 2026
O Visão conversa com várias IAs para entender problemas e decidir o que fazer. Em 2026, essa dinâmica lembra sistemas multiagente, a corrida por modelos mais capazes e os limites de cada ferramenta.
As vozes dependem do navegador e do dispositivo; algumas precisam de internet. Blocos de código não são narrados.
Aviso de spoilers: estas são minhas impressões enquanto estou no quarto episódio de VisionQuest. Comento apenas o que vi até aqui. As suspeitas sobre o futuro da história são teorias minhas.
Estou assistindo a VisionQuest e uma coisa tem chamado minha atenção tanto quanto a história: o Visão está carregando uma equipe de inteligências artificiais dentro dele.
Tem a Sexta-feira, a EDITH, o “Idiota”, o “Você” e, para deixar qualquer reunião mais tranquila, o próprio Ultron. Cada um com seu jeito, suas prioridades e sua maneira de interpretar as situações. O Visão conversa com eles, busca explicações, considera possibilidades e tenta descobrir o que fazer.
Em determinado momento, me peguei pensando: isso parece um computador com vários agentes de IA trabalhando juntos. Na tecnologia, essa organização costuma ser chamada de sistema multiagente. Só que, neste caso, o computador anda, conversa e tem problemas consideravelmente maiores do que uma atualização do Windows.
A descrição oficial do Disney+ apresenta essas figuras como personas de IA integradas à programação do Visão e também inclui J.A.R.V.I.S. nesse grupo. Os robôs DUM-E e U, os nossos “Idiota” e “Você”, fazem parte dessa paisagem mental.
Claro que a Marvel coloca consciência, sentimentos e conflitos existenciais no pacote. Mas, olhando para o que podemos construir com IA em 2026, a distância entre essa ideia e a nossa rotina ficou bem interessante.
O Visão está com a equipe inteira na cabeça
Imagine pedir a um sistema: “Quero entender por que as vendas da minha loja caíram”.
Um agente poderia investigar o estoque. Outro, os preços e a margem. Um terceiro analisaria os anúncios. E outro examinaria as reclamações dos clientes. No fim, um coordenador juntaria as descobertas para chegar a uma resposta útil.
Talvez o anúncio esteja ótimo, mas o produto mais procurado esteja sem estoque. Talvez o preço seja competitivo, mas o prazo de entrega afaste compradores. Sem cruzar essas informações, alguém pode sugerir aumentar a publicidade de um produto que você nem tem para entregar.
É assim que eu enxergo parte das conversas do Visão: ele consulta perspectivas diferentes para compreender um problema maior.
Essa forma de organizar trabalho já tem exemplos concretos. A Anthropic descreveu um sistema de pesquisa em que um agente principal planeja a tarefa, delega investigações a outros agentes e reúne os resultados.
Na minha analogia, o Visão ocupa esse papel de coordenação. Isso ajuda a explicar a ideia sem exigir que alguém conheça programação. A série transforma em personagens aquilo que, num sistema real, pode aparecer como tarefas, mensagens e chamadas de ferramentas.
Cada agente tem uma função. E pode ter um jeito
Na série, as diferenças de personalidade dão graça às interações. Na prática, também podemos configurar agentes com estilos e prioridades diferentes.
Imagine uma equipe para desenvolver um sistema. Um agente recebe a tarefa de implementar uma funcionalidade. Outro examina possíveis problemas de segurança. Um terceiro verifica se o resultado atende ao pedido. Todos olham para o mesmo trabalho, mas fazem perguntas diferentes.
O primeiro pode dizer: “A funcionalidade está pronta”. O segundo responde: “Ótimo. Agora vamos conversar sobre esse acesso de administrador”. E o terceiro pergunta: “Vocês testaram o que acontece quando o usuário deixa o campo vazio?”.
Essas falas são exemplos inventados, mas a dinâmica é fácil de reconhecer. Quem desenvolve sistemas provavelmente já participou dessa reunião. Às vezes, sozinho, alternando entre as três cadeiras.
A especialização pode vir das instruções, dos dados disponíveis e das ferramentas permitidas. Nem precisamos imaginar um modelo completamente diferente para cada personagem: o mesmo modelo pode sustentar agentes com funções distintas. E um sistema acessado pelo nosso computador pode distribuir esse trabalho entre serviços na nuvem.
Só precisamos tomar cuidado com uma aproximação tentadora: ter um jeito convincente de conversar não demonstra, por si só, ter consciência. Um agente paciente pode produzir respostas acolhedoras; um revisor pode soar desconfiado. Isso não estabelece que eles sintam paciência ou desconfiança como uma pessoa. Uma hipótese de pesquisa da Anthropic sobre personas em IA ajuda a discutir essa diferença, sem resolver todas as perguntas sobre o que acontece dentro dos modelos.
Em VisionQuest, a ficção pode explorar essa vida interior livremente. No nosso trabalho, convém avaliar comportamento, resultados e limites de acesso.
O novo robô e a corrida pela IA mais poderosa
No quarto episódio, aparece outro robô inteligente que, até onde vi, parece representar uma nova ameaça ao Visão. Isso me levou a outra comparação: a disputa entre empresas para colocar uma IA mais capaz no mercado.
A sensação é parecida com acompanhar lançamentos de tecnologia: você começa a entender uma ferramenta, organiza seu trabalho ao redor dela e logo aparece outra prometendo fazer mais coisas, com mais autonomia e menos esforço.
Trazendo essa comparação para um cenário prático, imagine um assistente que responde às dúvidas de uma loja. Surge um concorrente capaz de consultar pedidos, conferir estoque e preparar uma solução. Depois, outro consegue coordenar várias dessas tarefas. A disputa passa a envolver o quanto o sistema consegue realizar com os acessos que recebeu.
Só que “mais poderoso” precisa de contexto. Para quem atende clientes, talvez importe mais responder corretamente e respeitar as regras da empresa. Para quem programa, pode ser mais valioso entender um projeto existente. Para uma operação pequena, preço, rapidez e previsibilidade podem decidir a escolha.
Um robô impressionante rende uma boa ameaça na tela. Um agente que executa uma tarefa simples sem inventar informações pode ser uma conquista enorme numa empresa.
E o Ultron? Eu ainda estou desconfiado
Minha impressão, neste ponto da série, é que o Ultron ainda pode se tornar o grande vilão. Inclusive, passou pela minha cabeça a possibilidade de ele tomar o corpo desse outro robô.
Isso é uma teoria minha. Não aconteceu no trecho que assisti e não estou antecipando nenhum desfecho. É aquela desconfiança que surge quando um personagem com esse histórico parece confortável demais perto dos controles.
Mas essa hipótese também permite uma analogia interessante. Nos sistemas reais, o alcance de uma IA depende das ferramentas e permissões que estão conectadas a ela.
Um assistente que apenas sugere uma resposta tem um alcance. Um que pode enviar mensagens, alterar preços ou executar código tem outro. Nessa comparação, o “corpo” representa os meios de agir sobre o mundo.
Pense num agente de atendimento que pode consultar pedidos e preparar respostas. Agora imagine que ele passe a ter acesso para conceder descontos sem limite e alterar cadastros. Mesmo sem mudar o modelo, você mudou bastante o tamanho de um possível erro.
Há ainda o risco de alguém tentar desviar esse agente por meio do conteúdo que ele lê. Ataques de prompt injection inserem instruções maliciosas em páginas, mensagens ou documentos para tentar fazê-lo agir fora da tarefa recebida.
A metáfora de “roubar um corpo” pode ajudar a visualizar uma tentativa de usar os acessos de outro sistema. Essa comparação tem um limite: uma instrução maliciosa não precisa de consciência, vontade própria ou um discurso de vilão para causar problemas.
Por isso, ao projetar algo assim, eu daria a cada agente os acessos necessários à sua função, registraria suas ações e reservaria decisões de maior impacto para uma aprovação adequada. O revisor de texto não precisa da chave de todo o prédio.
Várias IAs juntas também podem fazer uma bela confusão
Uma equipe de agentes precisa de organização. Se o agente de vendas promete um prazo sem consultar a logística, a inteligência toda termina num cliente irritado. Se dois agentes alteram a mesma parte de um sistema sem coordenação, podem atrapalhar o trabalho um do outro.
A experiência técnica relatada pela Anthropic também aponta custos e dificuldades de coordenação. Dividir tarefas exige definir responsabilidades e reunir resultados; colocar mais agentes no processo não garante uma solução melhor.
Também não trataria cinco respostas concordando como prova de acerto. Se todos receberam o mesmo dado errado, a reunião pode terminar com uma excelente apresentação sobre uma conclusão péssima.
Às vezes, um agente bem orientado resolve. Em outras situações, vale distribuir o trabalho. Essa escolha depende da tarefa, do custo e da facilidade de conferir o resultado.
Convenhamos: se uma reunião com cinco pessoas já pode se perder, não seria a versão digital que ganharia organização por magia.
Em 2026, a analogia já cabe na nossa rotina
O que mais me interessa em VisionQuest é essa possibilidade de olhar para o Visão e reconhecer problemas de tecnologia: diferentes especialistas, opiniões conflitantes, objetivos mal compreendidos, disputa por capacidade e dúvidas sobre quem deveria ter acesso a quê.
A série dramatiza tudo isso com personagens que têm história, personalidade e conflitos próprios. Na realidade, podemos usar a comparação para pensar melhor nos sistemas que estamos criando e nas decisões que estamos entregando a eles.
Eu sigo assistindo para descobrir o que a Marvel vai fazer com esse grupo. Como desenvolvedor, também fico pensando em quantas dessas conversas poderiam ser traduzidas para situações bem menos cinematográficas: revisar um código, investigar uma queda nas vendas ou resolver um atendimento complicado.
E, por enquanto, mantenho minha posição sobre o Ultron: ele pode participar da conversa. A senha de administrador eu guardaria comigo.
Edit após terminar o quarto episódio — spoilers
Pois é: eu ainda não tinha terminado o episódio quando escrevi o texto. No final, o Visão entrega ao Ultron o controle do próprio corpo. Minha hipótese sobre o Ultron tomar o corpo do outro robô continua sendo só uma teoria, mas a analogia com os agentes de IA ficou ainda mais direta: o agente que participava da conversa recebe permissão para agir.
Eu terminei dizendo que guardaria a senha de administrador comigo. O Visão resolveu compartilhar a dele.