Sistemas

E se o conhecimento fosse a moeda? Meu TCC, o INTYME e o CONIC

O INTYME nasceu da proposta do meu TCC sobre economia solidária e aprendizagem entre universitários. Relembro a pesquisa, a orientação de Luciana Sessa e a viagem a São Paulo para apresentar o projeto no CONIC-SEMESP de 2018.

Ernani Nascimento Filho no 18º CONIC-SEMESP, diante do painel Pesquisa muda o mundo, em 2018.
Minha participação no 18º CONIC-SEMESP, na UNIP Cidade Universitária, em São Paulo, em 2018, quando apresentei o projeto INTYME. · Crédito: Acervo pessoal de Ernani Nascimento Filho.

Na foto que acompanha este artigo, estou em São Paulo, no CONIC-SEMESP de 2018, segurando meu crachá diante de um painel com a frase “Pesquisa muda o mundo”.

Eu tinha viajado para apresentar o INTYME, um projeto que nasceu da proposta do meu Trabalho de Conclusão de Curso em Administração. Por trás daquele nome havia uma pergunta bem próxima da vida de qualquer universitário: e se o conhecimento que um estudante domina pudesse ajudá-lo a acessar o conhecimento de que precisa?

Você entende uma matéria. Seu colega entende outra. Os dois precisam de ajuda, têm alguma coisa a oferecer e nem sempre conseguem pagar por uma aula particular ou conciliar os horários. Como a tecnologia poderia facilitar esse encontro?

Foi essa relação entre pessoas, aprendizagem e sistemas que procurei investigar. E ela ainda me parece um excelente ponto de partida para conversar sobre desenvolvimento de software com utilidade real.

A pergunta que virou TCC e deu origem ao INTYME

Meu TCC recebeu o título “O princípio da economia solidária como ferramenta para o desenvolvimento dos acadêmicos de graduação”. O trabalho foi escrito em 2018, no curso de Administração de Empresas do Centro Universitário Geraldo Di Biase, o UGB, em Volta Redonda, sob orientação da professora Luciana Sessa Generoso de França.

O INTYME nasceu da proposta desse TCC. A escrita dos dois trabalhos aconteceu de forma concomitante, com a Luciana me orientando tanto na pesquisa de conclusão de curso quanto no projeto de iniciação científica.

Enquanto o TCC investigava as dificuldades e as possibilidades da troca de conhecimentos entre estudantes, o INTYME dava forma a uma proposta de aplicação dessa ideia por meio da tecnologia da informação.

Essa ligação ajuda a explicar o que eu estava buscando: compreender uma necessidade e pensar em uma solução a partir dela. O desenvolvimento do sistema tinha uma pergunta humana para responder.

Uma videoaula de 27 minutos tornou a questão concreta

Uma das experiências analisadas no TCC aconteceu em junho de 2017.

Uma colega da minha turma havia perdido aulas e uma avaliação da disciplina de Empreendedorismo. Ela precisava compreender o conteúdo de Cálculo de Composição de Custos, mas tinha dificuldade para encontrar material compatível com o que estávamos estudando.

Gravei uma videoaula de 27 minutos e a disponibilizei no YouTube em 17 de junho de 2017. Eu produzi o material quando tinha disponibilidade; ela assistiu naquela noite, quando conseguiu.

O recurso era simples, e o efeito prático era muito claro: nossos horários deixavam de precisar coincidir. Além disso, ela podia pausar, voltar e rever a explicação.

No caso relatado no TCC, a colega disse ter compreendido melhor o conteúdo, e o trabalho registra um bom resultado na avaliação. A experiência se tornou parte da análise qualitativa da pesquisa.

Foi uma experiência individual de colaboração entre colegas, analisada no TCC. Ela ajudou a enxergar uma possibilidade; medir seus efeitos sobre o desempenho de uma turma inteira exigiria uma pesquisa mais ampla.

Ainda assim, havia algo muito útil ali: o conhecimento de um aluno podia chegar a outro no momento em que este conseguia estudar.

A turma já se ajudava. Faltava facilitar o encontro

A pesquisa de opinião do TCC reuniu 91 estudantes de Administração, do 3º ao 5º períodos, do UGB em Volta Redonda. Foram cinco perguntas fechadas, combinadas com a pesquisa bibliográfica e a entrevista sobre a videoaula.

Alguns resultados ajudam a entender a proposta:

O que os estudantes declararam Resultado
Tinham outras atividades além das obrigações acadêmicas 88%
Buscavam colegas da turma para tirar dúvidas ou recuperar conteúdos 76%
Apontavam a própria disponibilidade como maior dificuldade para estudar com colegas 55%
Apontavam a dificuldade de encontrar alguém disponível para ajudar 45%
Consideravam a falta de materiais gratuitos completos a maior dificuldade na busca por conteúdos 55%

Fonte: meu TCC, 2018, páginas 11 a 14 da numeração impressa. A divisão de 55% e 45% corresponde às duas alternativas de uma mesma pergunta sobre disponibilidade.

Esses números descrevem aquele grupo pesquisado. Os 88%, por exemplo, incluem diferentes atividades fora das obrigações acadêmicas; não significam que todos esses estudantes tinham emprego.

O dado que mais ajuda a compreender o INTYME é o dos 76% que recorriam a colegas. A colaboração já aparecia nas respostas. Havia uma prática existente que poderia ser melhor organizada.

Ao mesmo tempo, a divisão entre quem não tinha horário e quem não encontrava alguém disponível mostrava um desencontro. Uma pessoa podia saber explicar justamente o assunto de que outra precisava, mas a ajuda dependia de elas conseguirem se localizar e combinar a troca.

Minha leitura desses resultados era que havia espaço para facilitar a circulação desse conhecimento. Eles não mediam adesão ao INTYME nem permitiam prever quantas pessoas usariam uma plataforma.

Economia solidária aplicada à aprendizagem

A economia solidária foi a base conceitual usada para pensar essa relação.

Na fundamentação do TCC, ela aparece associada à cooperação, à autogestão, à atividade econômica e à solidariedade. São princípios que envolvem a participação das pessoas nas decisões, a construção de benefícios coletivos e o reconhecimento do que cada integrante pode oferecer.

Aplicados à educação, esses princípios permitem pensar em uma comunidade na qual o estudante também contribui para a aprendizagem de outras pessoas. Quem precisa de auxílio em determinada matéria pode ter facilidade em outro assunto e participar da rede a partir desse conhecimento.

Imagine um exemplo: uma pessoa ajuda com custos; outra consegue explicar matemática financeira; uma terceira sabe organizar uma planilha. Cada uma possui uma capacidade útil, mesmo que nenhuma domine tudo.

O TCC também discutiu os bancos de tempo. No Banco de Tempo português, os participantes registram o tempo dedicado a ajudar alguém e podem receber serviços de outros membros. A reciprocidade acontece dentro da rede, sem exigir que a mesma dupla retribua diretamente cada ajuda.

Essa referência contribuía para pensar formas de acesso ao conhecimento sem desembolso de dinheiro a cada troca. No INTYME, a proposta tomou forma com créditos próprios, chamados tyme.

Para mim, há uma ideia valiosa nessa abordagem: a pessoa que chega precisando aprender também pode ser reconhecida por aquilo que sabe.

O INTYME: uma proposta para conectar essas pessoas

Nos anais do congresso, o projeto foi registrado como “INTYME — Economia solidária como estratégia de desenvolvimento humano, através da utilização de tecnologia da informação”, na categoria Em andamento. O registro oficial do CONIC identifica o UGB como instituição.

A descrição do projeto no currículo de Luciana Sessa, reproduzido pelo Escavador, registra o desenvolvimento de um site para aproximar alunos de diferentes cursos do UGB. A proposta articulava economia solidária, gamificação e trocas mediadas por créditos chamados tyme.

Uma forma simples de visualizar a proposta é imaginar um estudante oferecendo ajuda em um conteúdo que domina e usando os créditos dessa participação para buscar auxílio em outro.

O desafio de um sistema assim vai além do saldo de créditos. Ele precisa ajudar as pessoas a descobrir quem pode contribuir, explicar o que procuram e combinar uma participação que faça sentido para ambas.

É nesse ponto que vejo a conexão entre Administração e desenvolvimento de sistemas: organizar informações, incentivos e processos para que uma necessidade encontre uma resposta.

Minha viagem a São Paulo e a apresentação no CONIC

Foi com o INTYME que viajei a São Paulo para apresentar o projeto no 18º CONIC-SEMESP, o Congresso Nacional de Iniciação Científica.

O evento ocorreu em 30 de novembro e 1º de dezembro de 2018, na UNIP, campus Cidade Universitária, conforme o registro do Semesp sobre aquela edição.

Ernani Nascimento Filho no 18º CONIC-SEMESP, diante do painel Pesquisa muda o mundo, em 2018.

Minha participação no CONIC-SEMESP de 2018, na UNIP Cidade Universitária, em São Paulo. Acervo pessoal.

O INTYME também foi um trabalho coletivo. Além de mim, os anais registram Marcus Vinícius Amaro de Medeiros de Souza, Victor Carvalho da Matta e Mariana Ferreira Costa na autoria. Na orientação, constam Luciana Sessa Generoso e Rafael Teixeira dos Santos.

A Luciana tem um lugar especial nessa história porque acompanhou os dois trabalhos: o TCC e o projeto apresentado no congresso. Registrar essa orientação e os demais participantes faz parte de contar o percurso com o devido reconhecimento.

A foto guarda esse encontro entre a pesquisa desenvolvida durante a graduação e sua apresentação em um congresso nacional. Quando a revisito, vejo a continuidade de uma pergunta que ainda orienta meu interesse por tecnologia: como fazer uma solução ajudar alguém de maneira concreta?

O que eu observaria ao desenvolver uma proposta assim hoje

Revisitar o TCC também permite olhar para a ideia com a experiência que veio depois. Se eu fosse desenhar uma iniciativa semelhante hoje, começaria com um grupo pequeno e observaria as trocas antes de ampliar o sistema.

Há algumas questões que eu colocaria no centro desse trabalho.

Encontrar a ajuda certa

Buscar “contabilidade” pode retornar muita coisa. Quem precisa resolver uma dúvida sobre composição de custos necessita de algo mais específico: assunto, nível de dificuldade, contexto da disciplina e formato da ajuda.

Eu procuraria organizar essas informações de maneira simples. O sucesso de uma busca seria aproximar o estudante de uma explicação útil para a dúvida que trouxe.

Dar condições para aprender e contribuir

Uma pessoa que entra na comunidade precisa conseguir começar. Exigir um histórico de contribuições antes de permitir qualquer acesso pode criar uma barreira justamente para quem está chegando.

Seria necessário definir, com os participantes, como acolher novos membros, reconhecer contribuições e lidar com faltas ou trocas que não deram certo. Os critérios precisariam ser compreensíveis para quem usa o sistema.

A cooperação também depende dessas pequenas decisões de funcionamento.

Cuidar da qualidade do conhecimento

Um colega pode explicar bem e ainda cometer um erro. Por isso, eu incluiria formas de corrigir materiais, indicar referências e sinalizar dúvidas que precisam voltar ao professor.

O TCC tratava a educação não formal como complemento à formação universitária. Preservar essa relação é essencial: a troca entre estudantes pode ampliar as oportunidades de estudo enquanto o ensino formal mantém suas responsabilidades.

Também pensaria em alternativas ao vídeo, como texto e áudio, para acomodar necessidades e condições de acesso diferentes.

Medir o que realmente ajudou

A gamificação fazia parte da proposta do INTYME. Ao revisitar a ideia, eu avaliaria com cuidado o que cada incentivo estimula.

Acumular pontos ou publicar muitos materiais pode movimentar uma plataforma. Para saber se ela está cumprindo seu objetivo, eu procuraria observar se as dúvidas foram atendidas, se as explicações foram consideradas úteis e se os participantes voltaram a contribuir.

Uma avaliação de efeitos sobre aprendizagem exigiria planejamento próprio. A quantidade de acessos, sozinha, não responderia a essa pergunta.

Planejar a continuidade

Trocas sem pagamento entre participantes ainda precisam de estrutura. Hospedagem, manutenção, suporte e moderação demandam recursos e dedicação.

Eu trataria a sustentação da iniciativa como parte do projeto desde o começo: quem cuida, como as decisões são tomadas e de onde vêm os recursos necessários para manter o serviço. Isso ajudaria a preservar a proposta de acesso ao longo do tempo.

Uma ideia que conversa com o que faço hoje

Hoje, trabalhando com desenvolvimento de sistemas e integrações, inclusive na Oombe, continuo encontrando situações em que a informação existe, mas precisa chegar à pessoa certa, no formato e no momento adequados.

No TCC, essa informação era o conhecimento de uma matéria. No desenvolvimento de sistemas, o contexto muda, mas permanece a necessidade de compreender quem vai usar a solução, quais dificuldades enfrenta e o que precisa conseguir fazer.

É também uma das razões para compartilhar conhecimento aqui no blog. Uma explicação sobre tecnologia, uma experiência de projeto ou o relato de um problema resolvido pode ser útil a alguém que está enfrentando uma dificuldade parecida.

A frase “Pesquisa muda o mundo”, no painel daquela foto, ganha um sentido muito próximo quando penso nessa história. Uma experiência concreta de ajuda entre colegas encontrou lugar na investigação acadêmica. O INTYME levou essa discussão sobre aprendizagem e cooperação a uma proposta de sistema e à apresentação no CONIC.

O INTYME nasceu nesse percurso, junto da escrita do meu TCC e com a contribuição de outras pessoas. Revisitar essa experiência é lembrar que desenvolver uma solução começa por prestar atenção ao que alguém precisa.

E fica uma pergunta para quem chegou até aqui: o que você sabe hoje que poderia ajudar outra pessoa a aprender?

Fontes e referências

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Ernani Nascimento

Desenvolvimento de sistemas, inteligência artificial, automações, dados e jogos. Um espaço para compartilhar experiências e aprendizados construindo projetos reais.

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